domingo, 4 de outubro de 2009

Cotidiano escolar

Em salas de aulas do ensino fundamental em escolas públicas da periferia das grandes cidades quase sempre impera o caos. Nesse ambiente os alunos estão continuamente trocando insultos que vão de provocações verbais "leves" até o embate físico.

A intolerância é quase generalizada entre os alunos. O teor das "conversas" gira quase sempre em torno de algum aspecto da vida dos colegas: falam das mães ou das irmãs uns dos outros, colocam apelidos maldosos. É interessante que geralmente eles têm conhecimento da intimidade dos colegas. Um apelido de família, a profissão do pai ou da mãe ou algum detalhe pouco recomendável relacionado à vida familiar de um colega, tudo isso é levado para a sala de aula como um instrumento de humilhação e provocação.

Quando há a intervenção do(a) professor(a) - e esta é indispensável para que se tenha um mínimo de ordem na turma - os insultos e palavrões são, por vezes, redirecionados ao docente em formas variadas desde gestos obscenos, ameaças, passando pelo xingamento explícito, chegando mesmo à agressão física.

Às vezes é impossível traduzir em palavras esse ambiente. Há dias em que muitos alunos resolvem imitar animais, então o que se ouve na sala e ecoa pelos corredores são urros, uivos, grunhidos, vozes ululantes, dentre outros ruídos silvestres. Tem-se a sensação de estar num zoológico com os bichos todos em alvoroço.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Dor de escritor

Lá estava ele novamente às voltas com mais uma de suas crises. Sentia uma ânsia de escritor. Era um desejo difuso de produzir algo de valor literário que o perseguia desde muito jovem e que era recorrente de tempos em tempos ao longo de sua vida.

Houve uma época em que acreditava piamente nessa sua pretensa vocação para as letras e chegou até a esboçar alguns poemas, algumas “cronicazinhas” de valor literário questionável... porém, tudo numa atividade descontínua, sem ritmo, sem perseverança.

Por fim chegou um momento em que desistiu dessa neura de ser escritor. Não percebia em si as características necessárias à exigente tarefa. Por exemplo, não tinha a paciência para reescrever várias vezes o mesmo texto. Escrever para ele era libertar-se de um fardo, era catártico. Uma vez posto para fora dava somente os retoques minimamente necessários à compreensão e clareza do texto. Não tinha lá muitas preocupações estéticas. Portanto, era uma perda de tempo insistir nessa idéia – pensava – além de ser uma atitude arrogante e pretensiosa. Ser escritor... imagine. E, então procurou conduzir sua vida sem exercitar a atividade de escrever contentando-se em saborear o prazer literário apenas como leitor.

Tinha uma obsessiva atração pelos livros e os compraria todos os dias se dinheiro tivesse para tanto e se dispusesse de tempo para lê-los. Facilmente perdia a noção do tempo quando entrava numa livraria. Se comportava como uma criança solta num festival de sorvete. Passava horas pesquisando os títulos, folheando páginas, sentindo o cheiro, a textura, lendo “orelhas”, prefácios, introduções e inebriava-se com o cheiro e a magia da página impressa.

Entretanto, lá no fundo de sua alma ressoava insistente uma paixão pela atividade literária não só como leitor, mas como possível produtor de literatura. Esse impulso bateu novamente à sua porta, desafiador e dolorido como uma ânsia de morte. “A minha vocação essencial está intimamente vinculada ao exercício da palavra, seja falada ou escrita”, ponderava consigo mesmo.

Então se pôs a caminho fazendo tentativas de escrever, numa espécie de exercício. Sua expectativa era que quando se dispusesse a escrever, as idéias fluiriam aos borbotões carregadas de sentimento, emoção, verossimilhança, bem construídas e esteticamente apreciáveis. Quanta ilusão.

Às vezes sentia uma dor na alma e tentava expor isso, mas ficava imóvel diante do papel em branco sem conseguir as palavras adequadas. Era como se houvesse uma ferida na qual tinha medo de tocar. Contudo, em momentos raros as idéias vinham em forma de textos quase prontos cujo trabalho era somente fazer a transcrição para o papel.

Resolveu parar tudo e ouvir as lições de Rainer Maria Rilke: “Ninguém pode aconselhá-lo e ajudá-lo, ninguém. Só existe um meio. Vá para dentro de você mesmo. Descubra o motivo que lhe pede que escreva (...).”

sábado, 15 de agosto de 2009

Lógica de Consumidor

Comprei um livro e enquanto o folheava percebi um pequeno defeito em duas de suas páginas. Era algo simples, pequenas arestas que resistiram ao corte e ficaram sobrando. Nada além de uns cinco centímetros que não alteravam em nada o conteúdo do livro. Se as dobrasse nem seriam notadas. Mas, lá estavam elas, incômodas a desafiar meu senso de perfeição.

Por alguns instantes essas insignificantes arestas me causaram um angustiante conflito. “Ah, vou trocar este livro, afinal está com defeito”, pensei. Porém, imediatamente voltei atrás considerando, “ mas nem altera o texto, que é o mais importante.” Minha racionalidade de consumidor esclarecido, porém, argumentou, “ora, eu paguei por um produto perfeito e tenho na mão um livro defeituoso.” Todavia meu lado prático insistiu em ponderar, “um corte preciso com tesoura e uns cinco segundos de tempo resolveriam o problema.” No entanto, meu anseio pela perfeição se exaltou, “grande ou pequeno é um defeito e, além disso nem tive desconto. Não, não posso levar este livro defeituoso” Ante contestações tão veementes, fui convencido afinal. Resoluto voltei à livraria e solicitei a troca, no que fui prontamente atendido. Recebi um livro perfeito, sem arestas. Lá na prateleira ficou o livro rejeitado por não preencher os meus exigentes critérios de perfeição. Por causa de duas pequenas e simples arestas.

Esse episódio corriqueiro me fez refletir sobre os critérios que por vezes, sutilmente, utilizamos para integrar ou excluir uma pessoa do nosso círculo de amizade. Normalmente estamos sempre abertos e preparados para encontrar e desenvolver amizades com pessoas que sejam “perfeitas”, bonitas fisicamente, inteligentes, integradas social e economicamente, que tenham bons hábitos à mesa... e com uma série de outros itens que preencham nossas vãs expectativas.

Geralmente temos a tendência para gostar daqueles que se parecem conosco. Isso nos dá uma margem de segurança e a tranqüilidade de que dificilmente seremos confrontados ou questionados em nosso estilo de vida. Por outro lado, é certo também, que com tal postura teremos poucas chances de nos surpreendermos e poucas oportunidades de termos a vida enriquecida pelas idiossincrasias daqueles que são diferentes de nós.

Assim, quando nos defrontamos com aquelas pessoas difíceis de amar, preferimos fazer “devolução”, como faríamos com um produto defeituoso. Não estamos muito dispostos a aparar arestas, a ter paciência, “perder” tempo com pessoas que não se encaixam no nosso perfil. Como bons consumidores somos orientados pela lógica do mercado e queremos o imediato, o perfeito, o adaptável, o que prometa bons resultados. Talvez tenhamos medo de expor nossas próprias arestas e, de repente, nos acharmos na condição de sermos rejeitados e devolvidos como produtos defeituosos.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Falta do que fazer

Numa das comunidades dedicadas ao Ricardo Boechat abriram um fórum para debater, maldosamente, a voz e o sotaque da Jornalista Ticiana Villas Boas. Ora, com tantos fatos relevantes acontecendo no País passíveis de discussões um monte de gente se dispõe a tal postura. Isso é que é falta do que fazer, além, é claro, de uma considerável dose de preconceito porque se ela tivesse sotaque paulista (interior ou capital) ou carioca ninguém se incomodaria com o tom de sua voz. Os participantes do tal fórum teceram comentários depreciativos até sobre as roupas da jornalista. Imagino que para os tais as informações transmitidas no telejornal são apenas detalhes. Só posso atribuir tal comportamento à inveja pelo fato da jornalista ser bonita, competente e ocupar uma posição de destaque numa rede de TV importante.